“Se você conversar em inglês com os parisienses, não te respondem”
Imagine que você está na sua cidade, e alguém chega conversando em russo, com você, e você não fale russo. E que esta pessoa insista em conversar em russo. É possível que você se irrite com esta pessoa. Assim como um francês pode se irritar, se ele não fala inglês, com alguém que insista em comunicar-se assim, certo? Isto é passível de ocorrer em qualquer local do mundo.
Só que o francês tem um motivo especial para não gostar da língua: como pode-se ver na História Francesa, o país já envolve-se em várias guerras contra os ingleses. Portanto, há uma rixa, ainda hoje, com este país, assim como os brasileiros, por causa do futebol (!), não gostam muito dos argentinos.
Mas esta implicância com a língua inglesa, na França, deve ser maior no interior do país, pois, na capital, é quase inexistente.
Por quê? Porque, em primeiro lugar, usando-se novamente a História como âncora, os Estados Unidos foram os grandes responsáveis por ajudar, duas vezes no século passado, a França a escapar do domínio alemão.
Além disto, o domínio cultural atual é americano. Ou seja, músicas, filmes, vão dos Estados Unidos para a França, e não o contrário. Acaba-se, assim, aceitando-se mais a língua.
E, por fim, talvez o mais importante, o turismo gera divisas enormes para a cidade. E a língua “universal” é o inglês. O francês que esteja envolvido em atividades turísticas e não saiba inglês está perdido. Ou seja, o desejo de captar o dinheiro do turista é que acaba andando. Sejam os guias de museus, sejam os vendedores ambulantes, quase todos falam ao menos o básico do inglês.
Cito um pequeno exemplo de como essa “ojeriza” com o inglês é um mito. Fiz francês por um período, antes de ir. Em todos os locais, tentava me comunicar em francês. No Cimetière du Père Lachaise, pedi uma informação a uma guarda, no portão. Em francês. Acho que ela viu que meu francês não era lá estas coisas, e abreviou a questão, perguntando-me: “Do you speak english?”
Com isto, chegamos ao mito seguinte:
“A França é o contrário dos Estados Unidos”
Tem-se uma idéia de que os Estados Unidos é um país feito de pessoas frias, que só pensam em dinheiro, e que na França as pessoas primam por aproveitar a vida, vagarosa e prazerosamente.
Eu mesmo não tinha vontade alguma de conhecer os Estados Unidos, antes desta viagem. Ainda hoje, não me disponho a gastar para ir a este país. Mas já não digo que tenho repulsa pelo mesmo.
Conheci, nestes albergues e hotéis, não apenas em Paris, mas por toda a Europa, muitos americanos.
E como eles eram? Já podemos começar por dizer que não são anti-Europa, pois lá estavam. Nem que eram antipáticos, pois com todos estabeleci boas relações. Pelo contrário, eram bastante simpáticos. E as americanas? Lindas, muitas. Simpáticas, também.
Claro que a amostra é viciada: só estavam lá os não-anti-Europa, os dispostos a conhecer pessoas etc. Sei disto. Quero registrar apenas a minha impressão: os Estados Unidos não é um país feito apenas de “Bushes”. Lá há, sim, pessoas legais.
Ao passo que na França há, também os capitalistas, em seus prédios de vidro, em seus carros (americanos) caros. Luta-se pelo dinheiro assim como nos Estados Unidos ou no Brasil. Boa parte das pessoas está voltada para o infindável “quanto mais, melhor”.
Nesta questão dos Estados Unidos, aportamos em outro mito:
“A cozinha francesa é a melhor do mundo”
Sim, a França possui pratos ótimos. Mas o que é a cozinha típica francesa?
Típico é o que surgiu no lugar ou o que as pessoas efetivamente comem no local?
Tudo bem, se definirmos como os pratos lá surgidos, a cozinha francesa é mesmo (por definição, até) “incomparável”.
Mas, se adimitirmos que a “cozinha francesa” é composta de tudo o que os franceses comem, deveremos incluir aí os “sanduíches gregos”, um em cada rua, e até o McDonald`s e a Coca-Cola.
Estou dizendo, então, que o Big Mac é um prato típico francês?!
Estou! Se os franceses comem, é, sim, um prato, se não típico, ao menos usual da “cozinha francesa”. Assim como poderíamos dizer que este sanduíche também faz parte da “culinária” brasileira, como a pizza.
Existe não apenas um McDonald`s em Paris, mas vários. Além de outras cadeias de fast-food. E não vivem vazios, não...
Finalizo esta “desconstrução” do francês com dois micro-mitos:
“A mulher francesa é muito elegante; o homem francês é charmoso, com sua boina...”
A mulher francesa é elegante, sim, e o país possui alguns dos estilistas mais famosos do mundo.
Mas, no dia-a-dia, nas ruas, não é nada que se possa dizer: “Oh, que elegância!”. Calças jeans, tênis, nada demais.
Claro, em épocas mais frias elas vestem-se mais, e isto dá um ar elegante. Mas isto, até no Brasil...
E a coisa mais rara é ver um francês de boina...
Aliás, a indústria das boinas está em crise no país, pois, além da venda das quedas, enfrenta a concorrência financeira das boinas vindas de países orientais, bem mais baratas.
Não espere ver também filósofos nos cafés, fumando seus charutos e com o olhar distante.
O que vi foi outra coisa: muitas pessoas falando sozinhas nas ruas, como loucos. Alguns, percebi depois, era porque falando ao celular, com um fone ao ouvido, mas muitas não, conversavam e gesticulavam como se falassem com alguém.
E, por fim...:
“O francês não gosta de tomar banho”
Sinceramente, não posso opinar sobre isto. Não perguntei a nenhum francês, nem fiquei vigiando algum para ver se tomava banho ou não.
Posso falar de fatos.
Em um hotel que passei duas semanas, o gerente estava todos os dias, por uma semana seguida, com a mesma roupa. Na semana seguinte, todos os dias com o segundo conjunto de roupas.
Bem, talvez nem tudo sejam mitos...


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