histórias de serial killers e análises

OS GRANDES MITOS

Pois bem. Meu desencanto com Paris começou logo que cheguei, já no primeiro minuto.
Tinha o endereço do hotel onde havia feito reserva, sabia qual estação do metrô, partindo do aeroporto, deveria descer. O metrô é subterrâneo, quando entra na cidade (o aeroporto é fora do perímetro urbano). Sendo assim, só fui ver Paris quando cheguei à estação e subi suas escadas.
Saí na Place de la Republique. Era quase noite. Fui caminhando até o hotel.
E então, um sonho de anos se desfez neste trajeto.
A cidade, à primeira vista, era suja, tinha mendigos amedrontadores, com cães feios, e em frente ao meu hotel havia um McDonald`s.
Ou seja, em uma pequena caminhada apenas, vários mitos caíram.
Você pode se perguntar: “mas ele era tão ingênuo a ponto de não saber que em Paris haviam McDonald`s? A ponto de não saber que lá existem pessoas pobres?”
Claro que não. Na versão pré-viagem do guia, inclusive, havia colocado um endereço de um McDonalds. Já havia lido também que, em Paris, há locais “que até a polícia teme ir”.
Mas é que a idéia que temos de Paris é radicalmente oposta ao quadro com o qual me deparei. Pensamos em Paris (Europa) como um local: limpo / bonito / rico / seguro / “anti-americano”.
Não é que eu não imaginasse que Paris tinha seus lugares: sujos / feios / pobres / perigosos / “americanizados”. Até mesmo porque eu já estava há um mês na Europa, tinha passado por Portugal, Espanha e pelo sul da França, e já tinha, então uma visão mais realista do continente.
Talvez o problema tenha sido estes anos de expectativa com Paris, que eu insistia em imaginar pensando apenas nos cafés, nas artes, nas mulheres elegantes e conversando “com biquinho”, nos queijos, nos vinhos.
Talvez o problema tenha sido o choque, que veio não de ver uma sujeira aqui, uma pobreza ali e o McDonalds do outro lado da cidade, mas de ver tudo isto junto.
Cheguei mesmo a temer ser assaltado, naquele trajeto.
Para confortar-me, pensei que pudesse ser obra do acaso, que talvez eu houvesse todo o azar de parar na “zona podre” da cidade. Ou que, talvez, como em Madri, “lavem” a cidade à noite, e ela acorde brilhando.
Já era tarde, entrei no hotel, na esperança de que, no dia seguinte, andando pela cidade, esta impressão se desfizesse.

E, realmente, o segundo dia foi diferente.
Fui andando até o centro da cidade, absorto. Eu estava em Paris, finalmente, e olhava tudo, fachadas, pessoas, mas queria chegar a um parque, precisava pensar e organizar algumas coisas. E então, chego ao Sena. Foi um momento mágico. Reconheci a Conciergerie (de tanto ler guias eu já estava expert nisso), um bateau passava sob a ponte. Naquele momento, me emocionei bastante.
Claro, Paris é apenas mais uma cidade, e sei que este valor do momento só houve porque, para mim, por causa de todas aquelas fantasias, Paris era um local diferente, “sagrado”.

Esta viagem, na verdade, foi mesmo para tomar uma decisão: se me mudaria para lá ou não. Tinha planos, desde a época de faculdade, de fazer um mestrado em Paris. Um dia, porém, tive um clique: porque não vou antes conhecer, ao invés de ficar aqui perdendo tempo (e dinheiro) estudando a língua, batalhando para conseguir o mestrado, e correndo o risco de, depois disso, chegar lá e decepcionar-me? Já vi histórias assim, e não devem ser poucas. No primeiro mês, tudo são flores, tudo é novidade. Fui para responder-me: como seria passar dois anos lá, chegar sem ter nenhum conhecido, nenhum amigo, ser um estrangeiro, não ter dinheiro sobrando para aproveitar tudo o que a cidade pode oferecer de bom, enfrentar o frio?
Por isto, resolvi que passaria por volta de um mês na cidade, e que esse tempo me traria as respostas.
Ali na ponte, portanto, em frente ao rio, encontrei não a Paris real, mas “a minha” Paris. Fiquei alguns minutos parado, então, arrepiado.
Mas tinha consciência de todo este processo. No meu diário de viagem, escrevi, nesta noite: “Paris não é especial. É especial para mim. É como se apaixonar em alguém: podem até existir várias pessoas parecidas com aquela, mas você irá conhecê-las e não irá se apaixonar nelas. Algo aconteceu, que te ligou àquela pessoa específica.”
Este vínculo afetivo tinha se formado bem antes, talvez desde a adolescência. Não desejava tanto ir a Lisboa quanto queria ir a Paris. Toda cidade européia era “opcional” no meu roteiro, menos a capital francesa. Mas fui a Lisboa, antes de Paris. Amei a cidade. Mas, repito a comparação: é como conhecer alguém que, pela via do pensamento, “sabemos” que é legal, mas nosso coração já tem outra dona. Paris era a dona do meu, até o dia em que cheguei. Subitamente, me perdeu. E ali, naquele momento, me recuperava.
O que viria depois? Como se resolveria essa história de amor e ódio?
Nos dias que se seguiram, tive a oportunidade de andar bastante pela cidade. Literalmente, andar. Preferi fazer os trajetos à pé, para poder ver o máximo possível das pequenas coisas. Houve dias em que atravessei mais da metade da cidade, nestas caminhadas. Não é tão puxado assim. Para-se em um local, em outro, come-se algo, descansa-se ali. Ao final do dia, aí sim, voltava de metrô para o hotel.
E pude ver muita, muita coisa bonita mesma. Viver emoções inesquecíveis, como a visita aos impressionistas, ou mesmo quando encontrei a guilhotina.
Mas, também, muita coisa feia.

Eu preferi, na primeira noite, ainda pensar que talvez estivesse na “parte feia” da cidade. Infelizmente, isso não se confirmou.
O que eu vi naquela noite, era possível ver em todas as regiões da cidade. Não que a cidade toda fosse decadente. Mas, por toda a cidade, passava em locais sujos, feios, de aspecto assustador. Haviam as regiões limpas e lindas, parques bem cuidados, prédios antigos restaurados. Porém, todo isto misturava-se com o mal-cuidado, com o mal-feito.
Não quero dar a impressão que Paris seja o local mais feio do mundo, longe disto, muito longe. Só quero dizer que também não é uma perfeição. Que, saindo um pouquinho dos pontos turísticos, é possível encontrar esta verdadeira Paris, uma cidade problemática como qualquer outra.
Vendo estes problemas é que muitos mitos, portanto, se desfizeram. Exemplifico, agora, como isto ocorreu.


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